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EditoriaRH / Carreira


26.01.2010 as 15h15

Cidades Criativas



Estas cidades atraem os melhores profissionais

Quando indagados sobre os motivos que os levam a seguir enfrentando tão exaustivas rotinas, os moradores de grandes metróploles geralmente alegam ficar devido à cultura, às pessoas, às oportunidades de trabalho nas mais diversas áreas. Sendo assim, cidades que pretendem manter suas economias aquecidas têm de oferecer cultura, integração social e emprego. E isso se aplica até mesmo do ponto de vista de retenção de talentos. “Várias cidades têm tentado promover a valorização da criatividade no ambiente urbano para reter os talentos qualificados”, conta Ana Carla Fonseca Reis, administradora pública pela FGV e consultora em economia criativa para a ONU. 

Ana Carla lançou em dezembro o e-book Creative City Perspectives, uma antologia com textos de 18 autores, de 13 países diferentes, por ela organizada e editada. O livro desenvolve idéias sobre como transformar cidades, sobre o papel do turismo, dos governos e da iniciativa privada nesta transformação. “Convidei 18 autores, todos voluntários, de 13 países, e cada um escreveu um capítulo sobre o que é uma cidade criativa”, diz.  Durante o evento de lançamento, ela falou ao Canal Rh sobre algumas das principais questões envolvendo a valorização da criatividade nas cidades. Confira. 

Economia criativa 

Temos vários conceitos ligados à criatividade que estão sendo muito discutidos hoje, em especial nos últimos dez anos. Um deles é a economia criativa. E a economia criativa foi criada na Austrália, apropriada, por assim dizer, pelo Reino Unido. E, na verdade, o que ocorreu é que, nesse momento em que a economia está cada vez menos industrial e mais de serviços, vários países se debruçaram sobre suas próprias contas nacionais para entender onde estariam as vantagens competitivas de suas economias. Invariavelmente eles descobriram que não vão mais brigar por commodities, por camisetas brancas, mas sim pela criatividade que é agregada a esses produtos e serviços, e daí a tal da economia criativa.

O parque têxtil, por exemplo. É o setor de serviços que mais absorve mão de obra feminina no Brasil, e é importante manter esse emprego para a mulher. Se tivéssemos parado no parque têxtil da camiseta branca, teríamos sido devorados pela China há muito tempo. Um dos motivos pelos quais conseguimos manter essa indústria ativa é o nosso setor de moda. É o que chamamos de intangível. Isso faz com que exista demanda pela camiseta. Então, não ganhamos US$ 20 por quilo de camiseta branca, mas sim US$ 80 por quilo de moda exportada. Os setores que agregam criatividade, e, portanto, valor aos setores tradicionais da economia, formam a economia criativa. 

Cidades criativas 

Quando falamos de cidades criativas, estamos contextualizando esta discussão no ambiente urbano. O que isso significa? Quando se pergunta: Por que você mora em São Paulo? O que você encontra aqui que não há em outro lugar? Por que apesar dos problemas da cidade você continua aqui? Em boa parte das respostas estão a efervescência cultural, a diversidade de pessoas que encontramos, as oportunidades de trabalho para coisas bacanas, para não fazer sempre mais do mesmo. Então se percebe que várias cidades têm tentado promover a valorização da criatividade no ambiente urbano para reter os talentos qualificados nelas. Temos Barcelona como grande ícone, Londres, e até Bogotá. Cidades em situação tão complicada como a nossa têm investido em criatividade urbana para que tenham melhor economia, pessoas mais contentes, mais satisfeitas, e para que funcionários de empresas que tenham que se transferir queiram ir. 

Então a discussão de cidades criativas tenta alcançar uma conciliação de objetivos e resultados sociais, culturais, e econômicos numa cidade que, como São Paulo, está sempre lidando com disparidades. A partir do momento em que se reconhece que criatividade também tem valor econômico, o fato de sermos criativos é uma boa notícia. Não só para a vida pessoal, mas também para a nossa vida profissional. 

Uma forma de fazer com que as cidades fiquem melhores, especialmente em situações de crise, é valorizando exatamente o que até ontem não era visto como um ativo econômico, que é a criatividade. 

Metrópole criativa 

Algumas cidades, embora grandes, se dão bem nessa equação, como é o caso de Londres. Barcelona também é relativamente grande e consegue se sair bem. Em grandes cidades de países em desenvolvimento, que aí são megacidades, como São Paulo, Rio e até Belo Horizonte, existem alguns problemas crônicos, como o que me impediu de chegar hoje, aqui, mais cedo. Fiquei duas horas e meia no trânsito. E a criatividade vive de conexões de idéias, de conexões espaciais. Se não houver uma infraestrutura que permita às pessoas se moverem, elas deixam inclusive de absorver mais criatividade por não poder chegar aos lugares. 

Outro problema é a enorme carência de investimentos em educação. A mão de obra dessas cidades é bem qualificada em termos brasileiros, mas temos pouca mão de obra qualificada em termos mundiais. A educação pública, de base, ainda é muito ruim.

Então, a grosso modo, temos dois grandes problemas nessas cidades. Falta de investimento em educação para que as pessoas consigam seguir seus caminhos, e falta de infraestrutura urbana. 

A empresa na cidade criativa 

Quando estudamos todos os grandes programas de transformação em cima de cidades criativas como Barcelona, Bilbao, Londres, Amsterdã, nenhum deles dá certo sem participação pública e privada. E muitos se perguntam: "A parceria funciona de fato, mas o que a empresa ganha com isso?" Com a cidade gerando maiores possibilidades de emprego e renda, a empresa consegue ganhar mais dinheiro e empregar mais gente. E consegue fazer com que seus funcionários sejam mais criativos. Quem não se estressa duas horas e meia no trânsito, quando chega no trabalho, está com a cabeça de outro jeito.

E as próprias pessoas se inspiram por aquilo que a cidade oferece. Quando podem sair à noite e, no dia seguinte, ficar pensando naquela peça de teatro bacana que foram ver.

Investir nestas relações também faz com que as pessoas fiquem mais criativas, e faz com que os talentos queiram ir trabalhar lá. É criação de emprego, renda, e atração de talentos qualificados. 

Empreendedor criativo 

Primeiro, o empresário tem de perceber quais são os grandes gargalos que ele enfrenta. Por exemplo, financiamento, muitas vezes o empreendedor criativo não tem garantias físicas, e por isso, dificuldades de financiamento, até para começar o negócio. No Brasil, o BNDES e o Banco do Nordeste já perceberam que existe aí um filão para investir. Então o próprio BNDES criou um departamento voltado ao financiamento do intangível. O Sebrae lançou uma carteira de cultura e entretenimento, para investir em pequenos negócios que não necessariamente têm acesso a crédito. Depois é preciso mapear a cidade e se estabelecer num espaço que favoreça as suas ideias e os seus negócios. 

Cidadão 

As pessoas não conhecem suas cidades. Nossos mapas mentais não casam com os mapas geográficos. E o problema é que nosso mapa emocional é ainda menor do que nosso mapa mental. Eu sei onde fica Guaianases, onde fica a Cidade Tiradentes, mas eu tenho algum vínculo com aqueles bairros? Não. Então, o que acontece nos bairros em que eu não tenho vínculo, sejam eles quais forem, para mim tem pouca importância. No fim, a cidade que eu valorizo é feita de meia dúzia de bairros. 

Se não tivermos esses mapas expandidos, não conseguiremos fazer com que a cidade seja criativa. Ela passa a ser um quebra cabeças desconecto. Então o grande barato de quem quer transformar uma cidade é, primeiro, conhecê-la, pois não podemos amar o que não conhecemos. 

Dubai X Abu Dhabi 

Eu teria restrições em dizer que Dubai é uma cidade criativa, mas falaria de Abu Dhabi. É o maior dos sete emirados árabes. Quando se fala em países árabes hoje, as duas primeiras coisas que nos vêm à cabeça são petróleo e terrorismo. Abu Dhabi está nadando em dinheiro, mas aí eles pensam no que vão fazer em 30 anos quando não houver mais petróleo, sendo que as pessoas não vão até lá devido à imagem do terrorismo.

Então eles resolveram criar um distrito cultural, investindo bilhões de dólares, vão criar um museu de artes nacionais, um museu Guggenheim, uma filial do Louvre, que será a única filial do museu fora da França. Estão criando também um museu marítimo, um centro para espetáculos, tudo para atrair os turistas. Nas projeções deles, irão receber 1,4 milhão de turistas por ano, sendo que a população do emirado é de 1,6 milhão. 

Quando a pessoa chega lá, primeiro ela começa a descobrir que nem todo árabe está ligado a questões terroristas. Depois, a própria população local tem de começar a ser mais criativa e até tolerante, pois o turista vai andar de regata e short. Então, primeiro, há um grande benefício social, de visão de mundo, as pessoas deixam de ser isoladas. Segundo, eles fizeram todo um business case em cima dessa grana que estão colocando, para mostrar que, daqui a 30 anos, se não tiverem mais petróleo, eles não só terão uma energia reciclável, que é o próprio turismo, como vão ter um povo mais preparado para lidar com o mundo. 

E para fazer este investimento, é lógico que há uma verba do governo, mas eles estão chamando todos os tipos de empresas de grande porte do mundo para investimento em infraestrutura, para a construção de marinas, para estabelecer empresas que sejam interessantes para este distrito cultural. Estão transformando a economia e a sociedade para fazer com que o lugar seja mais criativo no futuro. 

E-book 

Como há muito pouca bibliografia sobre o tema, eu convidei, com um colega dos Estados Unidos, 18 autores, todos voluntários, de 13 países, e cada um escreveu um capítulo sobre o que é uma cidade criativa, como ela se transforma, como evitar problemas, o papel do turismo. Temos Reino Unido, Holanda, França, Itália, Colômbia, Brasil, Taiwan e outros países. Jaime Lerner, André Urani e eu somos os três brasileiros no livro. O que buscamos é motivar esse debate. O livro é em inglês, pois não conseguimos patrocínio para traduções. Foi um exercício que durou um ano, e é o primeiro estudo mundial sobre o tema, e está sendo lançado e coordenado no Brasil. 

Serviço

O livro digital Creative City Perspectives pode ser baixado no link: http://www.garimpodesolucoes.com.br/index.html (em "livros")

Iuri Ribeiro

fonte: CanalRH - www.canalrh.com.br

 


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