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EditoriaRH / Saúde e Segurança


15.01.2009 as 13h48

Vá de bike!



Sem neura, sem carro, vá de bike para o trabalho

Todo dia você acorda para ir ao trabalho já pensando no trânsito que vai pegar? Enquanto aguarda medidas do poder público para melhorar a mobilidade urbana, que tal pensar em alternativas que só dependem de você? Leia abaixo o depoimento de quatro paulistanos que estão dando sua própria solução para o problema: trocaram quatro por apenas duas rodas.

Hélio Wicher Neto, 27 anos, advogado e cientista social, sai todos os dias da rua João Ramalho, altura do número 1.213, no bairro de Perdizes, São Paulo, para a Câmara Municipal, no Centro, onde trabalha. O trajeto totaliza cerca de seis quilômetros só de ida. A diferença dele em relação a outros milhares de paulistanos é que ele utiliza sua bicicleta para chegar ao destino e, independentemente do trânsito estar bom ou ruim, leva sempre o mesmo tempo: de 25 a 30 minutos. De acordo com seus próprios cálculos, este seria o tempo que levaria indo de carro caso não houvesse congestionamento, o que hoje em dia em São Paulo é raro. Para Neto, “qualquer pessoa é capaz de se locomover na cidade numa bicicleta”.

“Antes de comprar o carro utilizava apenas transporte público, basicamente ônibus que, apesar de faltar muito para atingir um padrão de qualidade razoável, principalmente nos quesitos tempo e conforto, oferecia certa liberdade de ação e pensamento. Ou seja, durante o trajeto da viagem era possível ler, escutar música ou simplesmente observar a cidade passar. Quando comecei a utilizar o carro cotidianamente percebi que nada disso era possível no trânsito. Não que eu não tivesse noção do que é dirigir, mas estava desacostumado e nunca havia encarado o trânsito de São Paulo, pois sou nascido em Araçatuba. Quanto mais tempo passava na direção maior era a irritação. Foi num desses momentos que eu decidi ir pela primeira vez de bicicleta e ver no que dava. Apesar do temor que o violento trânsito da cidade nos impõe, trafegar com um veículo mais lento como a bicicleta mostrou ser muito mais fácil do que imaginava. O controle é maior e a velocidade atingida é surpreendentemente rápida para os deslocamentos nas áreas mais congestionadas.

A melhor maneira de se proteger do trânsito não são os equipamentos como capacete e luvas – eles são superimportantes, mas com certeza não servirão de muita coisa numa colisão com um carro a mais de 40 Km/h. Acima de tudo é preciso saber andar no trânsito, ser parte dele. Isso significa conhecer as regras das ruas, saber onde é o seu lugar na via. O ciclista nunca deve ficar muito próximo ou distante demais do meio fio. No primeiro caso os carros passam a espremê-lo para fazer a ultrapassagem. No segundo, ele se torna um problema para o trânsito.

Andar a uma distância razoável significa deixar claro aos motoristas que o ciclista faz parte do trânsito e que para ultrapassá-lo eles devem abrir a distância lateral mínima de um metro e meio dele,  o que garante a sua segurança e a tranqüilidade do motorista. Outro fator importante é sempre deixar claro aos motoristas quais serão seus próximos atos na bicicleta. Se você precisa mudar de faixa ou entrar em uma via, é importante sinalizar com as mãos, para que o carro que está atrás diminua a velocidade e sirva de proteção.

Por último, mas não menos importante, sempre mantenha o controle sobre a bicicleta e a atenção no trânsito. Quanto mais você anda de bicicleta, mais aguçado fica o seu olhar "de canto", aquela olhadinha para trás quando você confere se a via está livre para mudar de faixa ou fazer qualquer outra manobra. Além disso, mantenha sempre os ouvidos atentos ao tráfego, eles são essenciais para a percepção do ambiente. Mantenha sempre dois dedos no mínimo sempre juntos aos breques, nunca se sabe quando algo vai acontecer, um carro virar sem dar seta, uma freada brusca etc.”

Dica do Neto para quem quer trocar o carro pela bike:

Saia no final de semana com sua bicicleta e faça o trajeto para o seu trabalho, de preferência mais de uma vez e mais de um trajeto. Esse treinamento é importante para sentir o trânsito da rua e principalmente conhecer o terreno e suas principais dificuldades.

Uma leve subida que mal é percebida quando se está frente ao volante ou um pequeno buraco no asfalto podem tornar-se obstáculos consideráveis de um trajeto, levando-o até a optar por outro mais longo, porém mais tranqüilo.

Depois faça o percurso num dia de trabalho, de preferência num dia mais tranqüilo no seu escritório, como uma sexta-feira. Sinta o trânsito e veja como seu corpo reage ao sol e aos carros. Com o tempo você vai vendo quais são suas necessidades, vai equipando sua bicicleta com acessórios que permitem deixar o seu corpo livre de mochilas e outros pesos que só fazem suar e cansar mais.

Silvio Tambara, matemático, 30 anos

Silvio Tambara chegou a pesar quase 100 quilos antes de adotar a bike como meio de locomoção. Hoje em dia, pedala 24 quilômetros por dia e leva pouco menos de uma hora para chegar até a avenida Paulista, onde trabalha. Segundo o matemático, as vantagens também financeiras: “economizo aproximadamente R$ 300,00 por mês, sem contar gastos com impostos e manutenção, que não são poucos.”

“Meu sonho de criança era ser ciclista, mas tive hepatite na adolescência e fui obrigado a não praticar esportes por um bom tempo. Acabei desistindo. Depois, lá pelos 25, minha vida estava muito distante do que eu queria: trabalhava muito, ganhava pouco, perdia três horas por dia no trânsito e pesava quase 100 quilos. Quadro típico. A bicicleta foi o motor de uma grande revolução, reorganizei minha vida e minha saúde em cima dela. Moro na Vila Indiana, próximo a praça Elis Regina e emagreci 10kg em 45 dias. Essa perda absurdamente rápida não foi só por causa da bike. Decidi emagrecer e fechei a boca e mudei a alimentação.

A melhor proteção para quem anda de bicicleta é a paciência. Mas nunca saio de casa sem capacete e luvas. Nunca. Antes usava por usar, para seguir as regras. Depois de ser atropelado uso por total convicção. A bicicleta é mais segura do que o carro em relação a assaltos, à saúde (principalmente coração e pulmões, mesmo na poluição de São Paulo), ao estresse e ao convívio social. Mas em relação à integridade física, talvez não. E a ironia é que a bicicleta é menos segura do que o carro em relação à integridade física devido justamente à violência dos automóveis. Comparando veículo com veículo, a bicicleta tem muito menos potencial de causar acidentes. É o carro a maior ameaça à bicicleta.

No trabalho, de início, achavam que era alguma extravagância, mas logo se acostumaram. Quando as pessoas percebem que é pra valer, que realmente existe gente que usa a bicicleta como meio de transporte, a curiosidade fala mais alto. Algumas fazem perguntas, pensando na possibilidade de também adotarem a bicicleta. Eu nunca tento convencer ninguém, só forneço informações.”

André Pasqualini, analista de sistemas, 34 anos

O analista de sistemas André Pasqualini é mais que um ciclista. Ele é um cicloativista. Não só ele utiliza a bicicleta como principal meio de transporte - o que incluiu a venda do carro - como mantém um site sobre o assunto. Junto de outros ciclistas participa de encontros mensais na Avenida Paulista para chamar a atenção das pessoas para o uso da bicicleta.

“Não troquei o carro pela bicicleta para ir trabalhar apenas. Ela é meu principal meio de transporte. Não tenho mais carro e não pretendo ter. Eu pedalo desde 1993, quando comprei uma bicicleta motivado por um amigo que fazia passeios nos finais de semana, para regiões próximas de São Paulo. Morava longe do trabalho, cerca de 20 km e ia trabalhar de ônibus.

Certo dia vi um amigo meu, que trabalhava na mesma empresa, chegando de bicicleta e parando dentro do estacionamento. Achei aquilo o máximo. Embora ele morasse a 7 quilômetros do trabalho, achei que era viável e passei a ir algumas vezes de bicicleta também. Mas eu ainda tinha aquela impressão de que o carro me daria status, projeção, facilidades, e, por isso, mantive o sonho de ter um.

Os anos foram passando, continuei andando de bicicleta, mas ainda dominado pelo sentimento de obrigatoriedade de ter carro. Mas eu comecei a conhecer pessoas que não tinham carro e conseguiam viver muito bem sem ele. Aquele status que o automóvel poderia me proporcionar já não me cativava. Com mais acesso à informação, acabei percebendo que os grandes problemas da cidade são causados pelos carros e pela política de priorização do deslocamento dos carros em detrimento dos demais transportes.

Para andar de carro você não precisa fazer um curso e aprender a dirigir, conhecer leis de trânsito, essas coisas todas? Para andar de bicicleta é mais ou menos assim. Se uma pessoa sem nenhuma noção de pedalar no trânsito, sai na raça, pode passar por maus bocados. Mas se tiver a companhia de alguém mais experiente para pegar alguns macetes, qualquer pessoa consegue usar a bicicleta para se locomover. Eu uso equipamentos de segurança, capacete, luvas e roupas de ciclista, pois geralmente meus trajetos são longos e eu costumo andar em alta velocidade. Mas na Holanda, por exemplo, ninguém usa capacete.

Equipamento de segurança tem suas utilidades. Muito mais importante que um capacete é a iluminação frontal, lateral e traseira. Para se sentir seguro, você tem que ser visto, em primeiro lugar.

Eu, particularmente, acho mais seguro andar de bicicleta do que de carro. Dentro do carro, você pode não correr risco de ser atropelado, mas corre sério risco de ser assaltado ou morrer de infarto devido ao estresse. De bike nunca fui assaltado e não costumo escolher lugares para passar. Sempre que vou ao médico só recebo elogios pela minha saúde. Felizmente o motorista de São Paulo está sendo mais respeitoso com o ciclista. Portanto só vejo vantagens em andar de bicicleta.”

Dicas do Pasqualine:

Procure trocar experiências com pessoas que já usam a bicicleta como meio de transporte. Elas darão dicas importantes para você adequar sua bike à cidade, os melhores trajetos, como se comportar na via. Há vários sites com dicas, dá até para se virar sozinho, mas o contato social que a bicicleta proporciona é uma dádiva que não encontramos em nenhum outro modal. Eu aconselho a quem quer começar a andar de bike, participar de uma Bicicletada. Elas acontecem todas as últimas sextas do mês, em São Paulo, saindo da Praça do Ciclista, às 20h.

Confira no site: www.bicicletada.org. Não precisa nem ter bike, a seguradora Porto Seguro empresta bicicletas [nos estacionamentos Estapar] inclusive para não segurados, de graça. Lá você vai conhecer centenas de ciclistas que usam a bicicleta como meio de transporte. Só de olhar como o pessoal pedala já dá para ter uma idéia de como se comportar na rua.

Há também listas de discussões, fóruns, chats, com a participação de ciclistas experientes. Quem já pedala, sabe que quanto mais bicicletas nas ruas, mais seguro. Portanto, tanto eu como a maioria dos ciclistas que eu conheço, farão de tudo para que mais pessoas usem a bicicleta como meio de transporte. Faça parte de um desses grupos e veja como é fácil pedalar.

Links interessantes para quem esta começando.

http://freeride.blig.ig.com.br

http://www.escoladebicicleta.com.br/

Willian Cruz, gerente de sistemas, 35 anos

Tudo começou porque o carro de Willian Cruz, 35 anos, quebrou e ele, para não gastar dinheiro nem tempo, resolveu desencostar a bicicleta da garagem. “Ao chegar no trabalho, percebi que tinha sido muito mais fácil do que eu pensava e comecei a fazer isso com uma regularidade cada vez maior, até abandonar o carro de vez.” Hoje em dia, Willian mantém um site sobre bicicleta cheio de dicas para quem quer começar a adotar a magrela como meio de locomoção.

“Saio de manhã da região da Praça da Árvore e vou até o Itaim Bibi, à noite retorno para o mesmo ponto de origem. Opto sempre que possível por ruas com menor fluxo de carros, mesmo que isso estenda um pouco o percurso. São cerca de 9 quilômetros na ida e outros 9 na volta. Com sol ou com chuva, levo sempre meia hora.

Para me proteger uso capacete e luvas (as luvas protegem as mãos no caso de queda). Mas o mais importante para o ciclista é escolher bem o trajeto e saber se comportar na rua, ocupando seu espaço, sinalizando, vendo e sendo visto. Em alguns países até gestantes utilizam a bicicleta (http://tinyurl.com/3nc445). Pessoas com mobilidade reduzida não conseguiriam pedalar numa bicicleta convencional, mas existem adaptações que atendem até certo grau de restrição de mobilidade.

Na empresa onde trabalho atualmente não há chuveiro e isso não é empecilho para mim. A discussão sobre como contornar esse problema é complexa e está bem descrita aqui neste site: http://tinyurl.com/semchuveiro. O maior problema é se não houver onde estacionar. Estacionamentos particulares não aceitam bicicletas. Mas sempre se dá um jeito. É bom ter uma boa corrente e de preferência uma trava em U, algo difícil de achar aqui no Brasil, mas que compensa o investimento. E, de qualquer forma, uma bike nova custa menos que o seguro de um carro.”

Georgia Nicolau e Fátima Cardeal

fonte: CanalRH - www.canalrh.com.br

 


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